sábado, 30 de junho de 2007

Flexisegurança

Com a anunciada revisão do Código do Trabalho, este é o conceito chave das novas relações laborais. Em troca da flexibilidade do trabalhador para desempenhar várias tarefas, supostamente garante-se a segurança no emprego. Lavar a casa-de-banho antes de se fazer um relatório sobre a quebra nas vendas de escovas de piaçaba pode parecer descabido, mas também pode ser só o início de uma brilhante carreira na área da limpeza, caso as vendas de piaçabas não subam.

Muito boa gente anda a resistir a estas mudanças, mas o que é certo que muitos quadros qualificados já aderiram à ideia. O exemplo a que tive acesso é paradigmático. Um amigo meu foi fazer uma ecografia ao joelho a um reputado analista da nossa praça. O que ele não sabia é que este analista também faz agora uns biscates como detective particular, pelo que conseguiu incluir nas conclusões da sua análise dados relativos aos dois mundos.

Pode parecer estranho a mesma pessoa enveredar por profissões tão distintas. Mas a estranheza logo passa quando pensamos que um divórcio é coisa para se arrastar uns 2 ou 3 anos pelos tribunais e a espera para se operar um joelho no hospital dura mais ou menos o mesmo.

domingo, 24 de junho de 2007

Assalto

Pelo Gabinete de Propaganda do Governo regional, lê-se isto:
No sector da habitação, o Governo dos Açores tem previstos investimentos da ordem dos 14 milhões de euros nesta legislatura, na Vila de Rabo de Peixe. O secretário regional da Habitação disse que este investimento representa a vontade política do Governo presidido por Carlos César de resolver um problema que no passado era uma "fatalidade". (GaCS)
Depois deparámo-nos com isto:
O meu marido não trabalha, não quer trabalhar. É um preguiçoso! Os meus dois filhos de vinte e de vinte e um anos também não querem trabalhar. Para lhes dar de comer tenho de ir para a cidade pedir esmola. E, agora, com a luz e a água da casa nova para pagar vejo-me obrigada a ir pedir também para isso. (RTP-Açores via azorpress)
Mais do que procurar os conselhos de um especialista em fuga aos impostos, o que me apetece é transformar esta “fatalidade” num internamento compulsivo num campo de trabalhos forçados.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Punch line

Diz quem percebe da poda que a punch line se resume a uma banal e até entediante palavra (ou conjunto delas) com poderes alquímicos, pois transforma a nossa pacata existência em sorrisos, gargalhadas e mesmos outras cenas afins (nos casos mais extremos, há quem rebole no chão ou se mije todo). E a coisa funciona tão-somente porque normalmente esta(s) fastidiosa(s) palavra(s) se segue(m) a outras de uma forma que não é esperada, por quem tem estas reacções assim mais… despropositadas. (E digo despropositadas porque, pelo menos, a minha avozinha sempre disse: “Muito riso, pouco siso!”)

Exemplos desta alquimia são mais do que a chuva nos Açores – o que é um feito notável –, mas apeteceu-me ir desencantar um a um sítio algo… inesperado. O destaque da habitual página de divulgação de websites da Saber Açores, deste mês, é dado ao Azoresrent, descambando a descrição do mesmo para uma miríade de termos técnicos capaz de enfadar até o maior dos geeks. Depois de tão forte aguaceiro de tecnicismos, aquela frase final só pode ser entendida como uma poderosa punch line apenas ao alcance daquelas mentes predestinadas ao mais fino humor – como eu as invejo!

(Saber Açores, Junho 2007)

segunda-feira, 18 de junho de 2007

O fabuloso mundo alternativo do Correio dos Açores

Para o comum dos mortais, o prémio “revelação do ano” distingue alguém que tenha passado a ser conhecido do grande público por ter realizado um qualquer feito assinalável. Porém, quem organiza a votação Os “10 mais” do Correio dos Açores certamente terá um espírito aberto que não se deixa constranger pelo que a generalidade das pessoas entende sobre este prémio. (Isto do “espírito aberto” foi um eufemismo para “certamente será pouco dotado de massa cinzenta”.)

Ora vejamos, no ano passado quem ganhou o prémio revelação foi… Natalino Viveiros (director do próprio jornal). Tendo sido secretário regional durante uma carrada de anos, a quem é que Natalino Viveiros se terá revelado em 2005? Aos meandros das decisões governamentais menos claras? Não. Aos tribunais? Também não. À eloquência discursiva? Definitivamente, não. Portanto, o mistério permanece e é matéria que, só por si, justifica toda uma série CSI: Açores.

Entretanto, um ano passou e é altura de se conhecerem os nomeados relativos a 2006. E os felizardos são: Victor Cruz, Vasco Garcia e Sónia Borges de Sousa. Tudo nomes que encaixam que nem uma luva na categoria “Revelação” ou talvez não.

Victor Cruz, que já no tempo do Ti João Bosco era considerado o seu delfim, que assumiu a liderança do PSD-A em 2000, que concorreu às eleições regionais em 2004, que se demitiu da dita liderança em 2005, só alcançou em 2006 aquele estatuto mítico por todos almejado: esteve desaparecido em combate na gerência de um hiper. Como não aparecer é antónimo de revelar-se, a nomeação fica plenamente justificada.

Vasco Garcia, professor da UAç desde a sua fundação, eurodeputado de 1989 a 1994, magnífico da UAç entre 1995 e 2003, apenas em 2006 atingiu finalmente a notoriedade pública que sempre procurou ao assumir a presidência dos Bombeiros de PDL. Logo, a nomeação tem tudo para ser igualmente apropriada.

A nomeação de Sónia Borges de Sousa segue a lógica da rama da batata doce das anteriores. Aliás, Sónia Borges de Sousa tem tantos predicados que também poderia ser nomeada numa outra categoria: Ilustre Desconhecida do Ano.

sábado, 16 de junho de 2007

Sugestão turística

Vagueava eu por aí descansado, a saborear a chuva, quando fui abordado por um turista que me indagou sobre onde poderia encontrar, este fim-de-semana, em PDL, um local bem frequentado e sem uma grande quantidade de gente propensa para o crime. Ele próprio mostrou-me dois possíveis locais no mapa: a Cadeia da Boa Nova e o Teatro Micaelense. Ao indicar estes dois locais, o turista facilitou-me imensamente a vida, tendo eu logo sugerido a Boa Nova, dado que no Teatro Micaelense está a decorrer, este fim-de-semana, um congresso com mais de mil presidentes de câmara e derivados.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Where's Wally?

O Açoriano Oriental de ontem publica uma notícia, com chamada à primeira página, que leva com o título “SATA baptiza aviões em dia de aniversário”. A notícia sobre o baptismo é tão boa, mas mesmo tão boa... que nem refere o nome que os aviões vão receber.


quarta-feira, 13 de junho de 2007

Luz

Sempre atenta às diferentes dinâmicas sociais, a Câmara Municipal de PDL acaba de solicitar à EDA a alteração da cor da iluminação pública na Estrada da Ribeira Grande antiga, na zona da Pranchina (Fábrica da Moaçor, residências universitárias, antigo quartel e arredores). Assim, e para que o ambiente se torne digno de quem por lá labuta, a zona passará a ter luz vermelha.

PS – Reparo agora (logo, isto é um verdadeiro post-scriptum) que "labuta" rima com aquela outra palavra que... Pronto, é melhor não dizer mais nada.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Adivinha

Qual é o mês qual é ele cujo nome começa por J e em que chove quase todos os dias? Junho (embora Julho também se possa vir a revelar uma boa opção).


domingo, 10 de junho de 2007

“Portanto, enfim, é fazer a conta”

O presidente da Câmara das Lages das Flores foi condenado, pelo tribunal, a devolver 150 mil euros que recebeu indevidamente ao longo dos últimos 8 anos, porque para além de autarca, também fazia uns biscates por fora.

Se eu fosse o edil das Lages das Flores, eu pagava com a mesma moeda, isto é, também ponha um processo em tribunal, mas contra desconhecidos (sempre sonhei em pôr um processo contra desconhecidos). Qual o crime de que acusava essas tais almas incógnitas? Discriminação. Não é que ele só lucrou uns míseros 150 mil euros, enquanto alguns colegas seus terão sacado milhões nas negociatas entre a Câmara de Lisboa e a Bragaparques?

PS – O título deste detrito saiu directamente deste estrondoso marco histórico da contemporaneidade portuguesa.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Vintage porn

Não se assustem. O título deste resíduo sólido urbano resulta apenas de um ataque mais agudo de algo de que padeço... Demência, creio que é isso. As incautas almas, que estão a ver a sua mente conspurcada pela exposição a este material assaz tóxico, certamente se interrogarão se será possível que quem por aqui defeca esta palavras seja atingido por esta maleita em níveis ainda mais elevados do que os habituais. Apesar de complexa, a resposta pode ser sintetizada numa palavra: é. Pior, é sempre exequível.

O bicho-de-sete-cabeças, que é como quem diz, o problema é que a demência, quando devidamente alimentada, se pode travestir em breves acessos de clarividência. Urge, assim, aproveitar um destes instantes para tentar justificar o injustificável. Ora, vintage não levanta bichos-de-sete-cabeças, pois até um viciado em vinho-de-cheio sabe que se refere a algo de antigo. Já porn abre todo um conjunto de pernas, perdão, de possibilidades. Mas, se entendermos a palavra como parente mais ou menos próxima de obscenidade, então logo se depreenderá que vou deixar por aqui mais um inglorioso recorte de uma qualquer publicação local.

Prometi abordar, nesta lixeira, a veia poética do multitalentoso apresentador de Máquinas e Lazer (RTP-A), editor da Saber Açores, empresário de ramos alternativos, organizador de eventos de “lazer e evasão”™, “jornalista” tão avesso a “arreliadoras avarias mecânicas em máquinas nipónicas”™, comentador de provas de natureza tendencialmente automobilística (são provas automobilísticas, mas o comentador leva-nos amiúde para universos paralelos), enfim, do Poeta Rui Ferreira. A sua voz é maviosa, mas é ao ver as suas elocuções grafadas no papel que atingimos a plenitude. Ler uma linha sua é colocarmo-nos para além da palavra, é transportarmo-nos para uma dimensão onírica de plena fusão entre o real e o... grotesco.

Seleccionar uma tirada de um poeta é tarefa deveras espinhosa. Porém, o contraste entre a banalidade da pergunta e a extravagância da resposta faz da passagem abaixo o mote que nos deverá conduzir até ao universo rui-ferreiriano
(clique para ampliar).

(Correio dos Açores, 09/10/2005)

PS - A resposta é tão esmagadora que nem vou referir o facto de não constituir uma frase, pois o poeta usa uma forma nominal do verbo ("corporizando").

™ Frases míticas proferidas pelo poeta, entretanto vulgarizadas pela resposta acima.

domingo, 3 de junho de 2007

Fast cars, fast women and fast... food players

A gente idealiza as coisas e depois a gente decepciona-se. A gente pensa que os desportistas (e os aspirantes a) fazem determinadas coisas e depois a gente vem a saber que afinal não é assim. A gente pensa que é só a gente que come mal, mas depois a gente percebe que não quando a gente lê aquele conjunto de folhas a que alguma gente chama revista Açores. (Repeti ad nauseam “a gente”, para evitar escrever algo como “eu li aquele conjunto de folhas”.)

(Açores, 03.06.07)

Já diz o ditado que de pequenino é que se come o pepino que vem no meio dos hamburgers. Agora, fico é sem saber como o Pauleta chegou onde chegou, tendo crescido sem Burger King.

PS - Aquele conjunto de folhas a que alguma gente chama revista Açores também podia era investir numa formação para o seus colaboradores subordinada ao tema “Como usar o verificador ortográfico em línguas estrangeiras (e, já agora, na língua materna)”.